terça-feira, 31 de março de 2015

Meu Lollapalooza 2015: Jack White absurdo e mais ótimos shows de rock

O Lollapalooza desse ano aconteceu nesse final de semana, mas fui somente no sábado, dia 28/03, porque reunia mais artistas que gosto, dos quais não tinha visto ao vivo e estavam na lista dos mais desejados. 



Fui pro Autódromo de Interlagos de metrô e trem, pois acho a forma mais fácil e barata de chegar ao local. A previsão de chuva pra sábado não se confirmou e o dia que começou nublado deu lugar a um sol agradável no meio da tarde, terminando com uma noite fresca. Marquei com duas amigas de nos encontrarmos lá, mas encontrei somente uma. 

Muita gente e vários palcos num espaço gigantesco dificulta o encontro, ainda que prefira a realização do festival no Autódromo de Interlagos e da forma como os palcos ficam dispostos, do que no Joquei Clube onde foi realizada a primeira edição, mesmo que a distância entre os palcos no Autódromo exija uma boa caminhada.  


Uma das coisas mais legais é que a disposição da pista permite visão ótima de dois dos três palcos principais, mesmo estando distante deles e ainda é possível sentar e descansar na grama depois de caminhadas e intervalos entre os shows.

O Chef´s Stage, criado ano passado, com culinária variada de chefs renomados permaneceu e acho uma ótima sacada. Por preços bons é possível comer comida de qualidade em relação a outros quiosques que vendem pizzas, hambúrgueres e pipoca por preço absurdo. Dessa vez, escolhi o baião de dois do chef Rodrigo Oliveira, do restaurante Mocotó e estava muito bom. 

Outro fator importante e prático é a compra pela internet de fichas para comida e bebida. Não peguei fila para retirar as fichas e o sistema era prático e rápido, enquanto muita gente encarou fila para comprar tais fichas e só depois podia retirá-las. 

Uma surpresa que não conhecia era uma van dos Correios que levava o público de um palco pra outro, reduzindo o tempo de caminhada de 20 minutos para 3 minutos. Pouca divulgação do serviço gratuito, tanto que chegaram três vans no mesmo momento depois do show do Kasabian e embarcamos na primeira e não tinha público, naquele momento, para lotar as demais. 

Agora vou falar deles, o mais importante em um festival voltado pra música, os shows.

O primeiro que assisti foi Boogarins, banda roqueira da agradável Goiânia. Pois é, essa capital não é berço só artistas de sertanejo e o Boogarins é uma das melhores bandas nacionais da atualidade. Com apenas um ótimo disco lançado, "As plantas que curam", já excursionaram pelo exterior, mas ainda são pouco conhecidos por aqui. Vi a banda no palco pela primeira vez na abertura do show do Franz Ferdinand em setembro e fiquei muito feliz com a escalação deles no festival, que deveria manter a proposta mais alternativa, levando bons artistas que ainda estão despontando no cenário musical nacional ou internacional. 



A apresentação no sábado foi ainda melhor e foi ótimo assistir ao desfile psicodélico muito bem tocado pelos integrantes e a atmosfera viajante das jams que se estendiam no set, agradando bastante os fãs que estavam próximos ao palco e ainda quem não os conhecia, mas parou para assistir.

Depois deles, segui para o palco mais próximo onde a banda inglesa Alt-J se apresentava. Conheço bem pouco, mas fui atrás dos discos para ter ideia sobre o som da banda e não cair de paraquedas. Em disco achei legal, mas não gostei do som ao vivo. Alternativo com folk rock parado e com músicas muito parecidas que serviu para eu descansar as pernas e partir pro almoço. 

Dali fui para o palco de outros ingleses, o Kasabian, de Leicester. Gosto bastante da banda que é uma das mais interessantes da safra anos 2000 e já vi alguns shows deles pela internet. Apostei na apresentação dos caras e valeu muito a pena. As músicas escolhidas prestigiaram vários discos da banda, que também passeia pelo eletrônico, sem perder a essência do rock no som.



Uma hora e quinze minutos de agitação do início ao fim, interação entre plateia e banda, desfile de ótimas pérolas como "Underdog", "Empire", L.S.F (Lost Souls Forever) introduzida com trecho de "Praise You" de Fatboy Slim e "Fire" (foi tema de abertura da Premier League até a temporada passada - primeira divisão do Campeonato Inglês de futebol - uma das melhores e mais importantes do mundo), as duas últimas tocadas na parte final do show deixando a galera com gosto de quero mais.



Ao final do show do Kasabian tive que correr pro palco onde acabara de começar Robert Plant and the Sensational Space Shifters. O eterno líder do Led Zeppelin fez um show muito bom, misturando clássicos do rock como "Black Dog", "Whole Lotta Love" e "Rock n´Roll", com arranjos diferentes e algumas versões mais extensas. “Going to California”, balada maravilhosa do Led foi um dos momentos mais lindos não só do show dele, mas do festival. Mas não tem só Led na lista de músicas. 

A outra parte do show fica reservada à carreira solo do cantor e é onde reside as maiores influências musicais distintas, como a africana e a oriental. Grande show de um cantor que ainda tem uma bela voz, mas sabe fazer uso dela sem abusar de tons altos não mais alcançados, ícone da história do rock acompanhado de músicos talentosíssimos, o que beira o óbvio pra quem esteve à frente de uma lenda da música que tinha o baterista, o baixista e o guitarrista mais respeitados e que são referência para quem pensa em montar uma banda de rock. 



Agora o grand finale, diante de um dos palcos em que eu mais queria estar nos últimos tempos: Jack White. Pupilo de Robert Plant, por quem foi mencionado duas vezes durante o show do ídolo, o multiinstrumentista de Detroit, dono de gravadora, amante da música, criador da canção que é entoada em estádios de futebol mundo afora, subiu ao palco com uma banda excelente e entrosada, visivelmente comandada pelo cantor. 

A entrada no palco e a música de abertura "Icky Thump" denunciam o som alto que sairia das caixas de som nas próximas quase duas horas do que não seria um simples show de rock. 

White é um dos melhores guitarristas de sua geração, formou dupla com Meg White no White Stripes, integrou Dead Weather e Raconteurs e partiu em carreira solo lançando dois ótimos álbuns, Blunderbuss (2012) e Lazzaretto (2014), em que conseguiu imprimir identidade e experimentações que remetem aos trabalhos anteriores, mas que mostram um crescendo em qualidade e criatividade.   



Ao vivo, as músicas ficam ainda melhores do que em disco, principalmente as do White Stripes.

De todos os trabalhos anteriores, apenas músicas do “The Dead Weather” ficaram de fora do show. Para alegria de muitos e da pessoa que vos escreve, "Ball and Biscuit" e "Dead Lives and the Dirty Ground" dos Stripes foram tocadas, assim como a melhor dos Raconteurs, "Steady as She Goes", ótima em disco e excelente ao vivo. 

As músicas da carreira solo se destacam na apresentação e canções de "Lazzaretto" como "Would You Fight For My Love", "Three Women" e a instrumental "High Ball Stepper" casam perfeitamente com a estética linda do palco com projeções de luzes azuis. 


As influências setentistas, do blues, do country e as roupagens mais modernas, com metais e sintetizadores estiveram presente em todo show. E "Seven Nation Army", maior hit do White Stripes e uma das músicas mais famosas dos anos 2000, entoada pelo Ôôôôôô característico e famoso em arquibancadas de jogos de futebol ao redor do mundo até hoje, marcou o final de uma apresentação impecável e inesquecível.

No domingo, assisti pela tv, porque vou a festival se tiver um número considerável de bandas que gosto muito ou ainda não tenha visto e apenas uma delas estava escalada pro dia 29/03. Os novaiorquinos do Interpol fizeram um show ótimo, com set list lindo. 

Tocaram a minha música favorita deles, "Leif Erikson" de "Turn on the Bright Lights", primeiro e melhor disco da banda, do qual ainda vieram "PDA", "NYC", "Say Hello to the Angels" e “The New"; a climática e bela "Rest my Chemistry", melhor música de "Our Love to Admire"; do mais recente e bom disco "El Pintor" foram tocadas "Anywhere", "Everything is Wrong" e "All the Rage Back Home" e fecharam com "Slow Hands", do segundo e ótimo "Antics" que havia aparecido antes com "Not Even Jail", "Narc" e "Evil". Um ponto negativo da apresentação foi a voz de Paul Banks mais alta do que as guitarras na parte inicial, mas contornada depois da quinta música. 

Pitty e Smashing Pumpkins fizeram bons shows, tocando rock de verdade, que é o que mais me agrada fora e em cima do palco. A primeira, com presença de palco cada vez melhor e acompanhada de uma banda competente, mesclando músicas do mais recente disco e outras que já viraram hits do rock nacional. A segunda, com apenas Billy Corgan, líder-vocalista-guitarrista, da formação original e responsável por embalar a minha adolescência nos anos 90 com ótimas canções bem executadas ao vivo. 

O pop, o eletrônico e bandas intituladas de rock, mas que não fazem som algum com guitarra e bateria, tão parecidas entre si, dominaram os palcos de domingo. Em relação aos shows de sábado e por uma das melhores apresentações que já assisti (Jack White), o saldo foi muito bom.

Espero sempre que o melhor show ainda esteja por vir e que o Lolla do ano que vem resgate algo mais alternativo - deslocado e sem espaço - e mais roqueiro, o que parece meio impossível em se tratando de festivais de grande porte não apenas por aqui, com menos artistas pop e DJs, sobretudo os últimos que já têm espaços reservados em tendas próprias dentro dos festivais.

domingo, 8 de março de 2015

Feliz dia pra quem?

Todo dia internacional da mulher me faz voltar aos tempos de colégio. Uma das melhores professoras que tive não gostou de receber parabéns por este dia. Entendo a posição dela e compartilho do mesmo sentimento, afinal, esse dia foi criado em homenagem às mulheres que morreram carbonizadas em 1857 dentro de uma fábrica de Nova Iorque, porque fizeram greve reivindicando melhores condições de trabalho, como redução do horário da jornada e igualdade salarial entre homens e mulheres.

Embora outras manifestações ocorridas anteriormente a este período clamassem por tais direitos e exista controvérsia sobre a data correta, a morte de centenas de funcionárias na indústria têxtil nova-iorquina parece ser o indicador da data criada para celebrar o dia internacional da mulher.

Mesmo que a data trágica tenha mais de 100 anos, algumas pautas pelas quais as empregadas lutavam ainda são motivo de reivindicação atualmente.

Não à toa, um dos discursos mais aplaudidos e comentados do Oscar 2015 foi o da atriz Patricia Arquette, premiada com o Oscar de Atriz Coadjuvante pelo seu papel em Boyhood. Arquette pediu igualdade de direitos e equiparação salarial para todas as mulheres dos Estados Unidos, o que pode ser estendido ao mundo inteiro, uma vez que apenas na Dinamarca uma mulher tem o salário maior do que o homem em um universo de 142 países. 


Antes dela, a atriz Emma Watson fez um discurso emocionante e necessário na ONU em favor das mulheres na luta pelos seus direitos.


Especificamente sobre o ambiente de trabalho, certas situações não se restringem somente ao salário e ocorrem antes da contratação, durante a entrevista de emprego, deixando claro o preconceito e desrespeito do recrutador em relação à mulher. 

A coordenadora de área vibra mais ao saber que você é solteira, não tem marido e filhos, logo, vai se dedicar exclusivamente e o maior tempo possível ao escritório, deixando em segundo plano a sua experiência, educação e títulos. Ou o coordenador que não se contenta em saber que você é solteira, como indicado no currículo, mas insiste em saber mais além do estado civil e não satisfeito encerra com a frase “eu sei que a pergunta é indiscreta, mas a gente precisa saber antes de contratar, para você não aparecer grávida daqui a quatro meses e sobrecarregar nós dois, apontando para o OUTRO colega presente na entrevista”.

Os dois exemplos mostram, primeiro, o desrespeito em relação à mulher, como do sexo feminino, tão somente, como eu, você, sua prima, amiga, irmã, tia etc., que já passaram por isso ou poderão passar, infelizmente. Depois, com mulheres que já são casadas, as que são casadas com filhos e as que têm filhos, mas não são casadas.

Mas a situação das mulheres no mundo vai além do salário desigual ou das perguntas estúpidas em entrevistas de emprego que não devem ser admitidos de qualquer maneira. Violência doméstica, pré-julgamento pela roupa que veste ou pelo que fala, interferência do Estado em relação ao seu corpo, assédio nas ruas no transporte público, também são situações graves que mulheres enfrentam dia a dia.

Portanto, ainda que tenhamos alcançado o direito de voto e o direito de trabalhar fora, ainda falta muito para que sejamos tratadas com respeito e dignidade devidos a qualquer ser humano.

E deixe flores para qualquer outro dia do ano, pois não temos o que comemorar, mas lembrar da centena de mulheres que morreram buscando seus direitos e outras centenas, milhares que morrem em todo o mundo, a cada dia, a cada minuto.